Una Dinastia di Lavoro
Uma dinastia di Lavoro
A região do Estado de Veneto ficou praticamente 1000 anos dividida entre 2 grandes potências militares. O centro sul tendo como capital a cidade de Veneza se formou a famosa "Sereníssima República de Veneza" ( fundada em 697 d.C e que durou até 1797 d.C). Já o oeste do atual estado de Veneto pertenceu ao Sacro Império Romano Germânico ( 962 d.C até 1806 d.C). Estas duas super potências foram incorporadas pelo imperador francês Napoleão Bonaparte e passaram a fazer parte do mesmo reino.
Temos registros de Gasparo Grando vivendo a cerca de 40 km ao norte de Veneza na Comune di San Vendemiano no ano de 1680. Casou-se com Maria Cattarina. Em 1705 nasce seu filho Romualdo Grando. Ao longo dos anos, ele se casa com uma ragazza de nome Maria e em 1744 dá nome a seu filho de Gasparo Grando em homenagem ao seu pai. Gasparo se casa com Pasqua Cimettan e em 1785 nasce o segundo filho do casal, recebendo o nome de Domenico Grando ( o primeiro filho nasceu em 1779 e conforme a tradição recebeu o nome do avô paterno Romualdo).
Em 1811 Domenico casa-se com Lúcia Citron e deste casamento nascem Gaspare em 1813 e Angelo em 1817, porém Lúcia vem a falecer um ano depois de tifo. Em 1819 Domenico casa-se pela segunda vez. Sua segunda esposa se chamava Maria Pavan.
Em 1797 a família Grando vivendo e trabalhando na região sul do estado de Veneto pertencente à República de Veneza, viu a região passar para as mãos do militar frances Napoleão Bonaparte.
Napoleão Bonaparte jovem militar, acumulou conquistas territoriais em nome da França desde 1789 e chegou ao poder em 1799 ( episódio conhecido como “o 18 de Brumário”) sendo coroado imperador da França em 1804 sob o nome de Napoleão I. O jovem militar de 30 anos ganhou notoriedade pelas inúmeras batalhas vencidas, subjugando boa parte da Europa ocidental. Porém a partir de 1810, Napoleão combatia a coalizão formada por Inglaterra, Áustria, Prússia , Rússia e Suécia. Após a desastrosa campanha militar na Rússia, quando partiu com 600 mil homens de Paris e retornou com menos de 100 mil, Napoleão viu seu império ruir com a derrota para os estrangeiros em 1814, sendo levado prisioneiro para a ilha de Elba.
Assim em 1815, no congresso de Viena, ocorre um redesenho do mapa europeu visando equilibrar as principais forças militares dominantes. É neste contexto que a Áustria passa a ocupar no norte da Itália , a região de Vêneto.
Domenico Grando que já tinha presenciado sua região ser invadida pela França em 1797 via agora a região passar ao domínio do Império Austríaco em 1815.
Foi na cidade de San Fior que em 1827 há o registro de nascimento de outro filho de Domenico , Antonio Grando. O batismo de Antonio Grando se deu na Igreja Paroquial de San Fior di Sotto ( distrito de San Fior). Igreja esta dedicada a Santa Giustina Vergine e Martire.
A ocupação da região pelos austríacos nunca foi aceita pelos italianos do norte e a partir de 1833 esta ocupação passou a ser cada vez mais contestada a medida que crescia o sentimento nacionalista do povo italiano buscando a unificação de todos os reinos em um único país.
Diversos levantes aconteceram e foram reprimidos pelos austríacos. Porém a partir de 1859, com a ajuda da França através do seu imperador Napoleão III ( sobrinho de Bonaparte) e de republicanos como Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi com seu exército chamado “camisas vermelhas”, a Itália entrou em guerra contra os Austríacos pela sua unificação.
Antonio Grando casou neste período com Teresa Bolzan e tiveram um filho em 1859, dando-lhe o nome de Domenico em homenagem ao pai de Antonio. Domenico nasceu no distrito de Pianzano, na cidade de Godega di Sant´Urbano, vizinha da cidade de Codognè. Não se sabe se Antonio lutou ao lado dos italianos contra a dominação, mas é provável que sim, pois os italianos eram obrigados a se recadastrar anualmente no exército .
Em 1861 a Itália finalmente consegue a sua unificação, quando Garibaldi abdica da instalação de um país republicano para não dividir ainda mais o país. Desta forma, a Itália se torna um país monárquico parlamentarista e o rei Victor Emanuel II de Piemonte é coroado em 1861.
A região de Veneto só foi anexada ao país unificado em 1866 após novas investidas militares. E é justamente neste período que nasce mais um filho de Antonio Grando, chamado Paolo Grando ( nascido em 1864).
Em 1866 nasce mais um filho de Antonio Grando e Tereza Bolzan, chamado Vittorio Grando. Ele nasceu no distrito de Séttimo na cidade de Cinto Caomaggiore, também no Estado de Veneto, na província de Venezia, Porém aos 10 anos de idade, Vittório veio a falecer na cidade de Codognè.
Estes fatos mostram que
Antonio Grando percorreu vários locais próximos uns dos outros ( todos dentro do Estado de Veneto) durante a sua vida adulta, provavelmente em busca de trabalho ( há registros de sua morada nas cidades de Godega di San´Urbano e Cinto Caomaggiore). Mas foi na cidade de Codognè que passou seus últimos dias na Itália antes da imigração para o Brasil.
O status pós guerra, deixou a maioria da população da Italia arrasada.
O país enfrentava epidemias de doenças, estava com uma superpopulação concentrada nas cidades, sem acesso a terra e vivendo em situação de extrema pobreza. Simultaneamente, o Brasil já enfrentava a proibição do tráfego negreiro desde 1850 ( com a lei Eusébio de Queirós) e assim uma falta de mão de obra nas lavouras do sul e principalmente nas lavouras de café do estado de São Paulo. Desta forma, começou a circular na Itália, panfletos com propagandas de fazendeiros brasileiros com a aprovação do então imperador Dom Pedro II oferecendo trabalho a população italiana.
Os fazendeiros ofereciam inclusive o pagamento das viagens das famílias de navio, com o compromisso das mesmas ao chegarem ao Brasil pagarem as despesas com o seu trabalho nas lavouras, o que se convencionou chamar de “imigração subsidiada”.
Após a morte do rei Victor Emanuel II, seu filho , Umberto da casa de Savoya, foi empossado Rei da Itália em 1878, sob o nome de Umberto I. Foi assim que Antonio Grando em 1888 solicitou autorização real para que ele, sua esposa e seu filho caçula Paolo Grando tentassem a vida no Brasil. Com o passaporte autorizado pelo rei Umberto I, ele reuniu a família e embarcaram no trem de Verona rumo ao porto de Genova.
Vários parentes os acompanharam: irmãos ( Gaspare Grando, seu irmão mais velho então com 75 anos estava junto), primos, sobrinhos.
Seu filho mais velho, Domenico Grando, já casado com Augusta Benedettti ( casamento se deu em 03/03/1886 em Codognè) foi obrigado a ficar na Itália pois o primeiro filho do casal então com 10 meses estava muito doente.
De Genova, Antonio Grando e parte da família tomaram o navio Carlo R da Navegacione Generale Italiana Florio-Rubattino em janeiro de 1888 ( viagem inaugural do navio, com capacidade pra 1600 pessoas, construído na Grã Bretanha pra transportar cargas ) e desembarcaram no porto de Santos no dia 05/02/1888. Não tinham contrato firmado com nenhum fazendeiro, mas logo que chegaram foram trabalhar em uma fazenda na região de Maristela, município de Laranjal Paulista.
Poucos anos antes ( 1884), a parte da família Grando procedente de outra região de Veneto, na cidade de Arsiè, província de Belluno ( norte do estado), região montanhosa da Itália, também emigra para o Brasil. Porém, ao invés de virem para as plantações de café do Estado de São Paulo,são atraídos para a região oeste de Alfredo Chaves, hoje Fagundes Varella região próxima de Bento Gonçalves, que tinha na época um programa de venda subsidiada de pequenos lotes de terra aos imigrantes com o intuito de aumentarem as áreas cultivadas da então província de São Pedro do Rio Grande ( que após a proclamação da república em 1889 passou a se chamar Estado do Rio Grande do Sul).
Domenico Grando e Augusta Benedetti, tiveram 4 filhos na Itália:
1) Antonio Grando nasceu em 23/03/1887 em Codognè, porém faleceu 1 ano depois, em 31/03/1888.
2) Angela Maria Grando nasceu em 29/11/1889 em Codognè.
3) Francesco Grando nasceu em 15/02/1892 em Codognè.
4) Carolina Grando nasceu em 17/01/1894 em Codognè.
Em 1895, Domenico, sua esposa e seus três filhos partem do porto de Genova rumo a Santos. De Santos partiram também para Maristela para se juntarem ao resto da família.
Em 1895 a família comprou 6 alqueires de terra no então entreposto comercial chamado de Cerquilho ( do espanhol Cerquillo, que significava cercado), no bairro Galo de Ouro. A região era um entreposto de tropeiros que sempre passavam por ali em direção as feiras de Sorocaba e pertencia ao município de Tietê.
O local passou a ganhar algum destaque quando D. Pedro II em 1882 inaugurou trecho da ferrovia transorocabana, o que fez aumentar o movimento da região.
Os Grandos aos poucos foram todos se mudando para o local, construiram um casarão onde passaram a viver todos juntos em regime de trabalho comunitário e partilha. Portanto, enquanto muitos italianos que aqui chegaram viveram em condições sub-humanas de trabalho e moradia sendo obrigados a pagar suas passagens de imigração assim como comprar todo o produto que consumiam de seus empregadores, a família Grando, graças ao seu trabalho, disciplina e união, em pouco tempo já tinha sua própria terra, plantando e criando animais para seu sustento. De origem católica fervorosa, a família constriu sua própria igreja na propriedade, a primeira, do então vila de Cerquilho chamada Capela do Rosário.
O filho de Antonio, Paolo Grando casou-se com Augusta Gava e foi um dos primeiros chefes do chamado Casarão. Ele era o responsável por dividir as tarefas e guardar o dinheiro dos negócios, dinheiro este que era guardado nos colchões. Faleceu em 1937.
O casarão chegou a abrigar mais de 100 pessoas. A casa tinha: a ala dos homens, com duas mesas enormes para acomodar 20 pessoas em cada uma. Nesta mesa faziam as refeições e jogavam tômbola e baralho. A alta das mulheres eram menor pois as mesmas não se sentavam a mesa. A casa tinha ainda cozinha, despensa e cantina. Em outra ala construída separadamente formava os blocos dos mais de 24 quartos.
Viviam da agricultura. Plantavam café, milho, feijão, cana, uva, laranja, pêssego. Tinham também um chiqueiro pra cuidar dos porcos. Gostavam de esportes: corrida de cavalo, bocha, briga de galo e futebol. Produziam quase tudo de que precisavam: sabão, fubá ( faziam polenta 2x ao dia), vinho caseiro, melado pra fazer açucar (adoçavam o pão chamado "pinça" feito enrolado em folha de bananeira), linguiça. Duas mulheres eram encarregadas do trabalho doméstico. As outras acompanhavam os maridos na roça. Na cidade compravam tecido ( peças inteiras pra fazerem as roupas), queijo, sal e macarrão. Após as colheitas faziam festa com crôstoli e vinho para comemorar.
Seu irmão mais velho Domenico Grando teve ao todo 10 filhos: Antonio , Angela, Francesco, Carolina ( nascidos em Codognè, na Italia) e Paolo, Vitória, Antonieta, Catarina, Carmela e Olívio ( nascidos já no Brasil).
O jovem Francesco que chegou nos braços dos pais com 3 anos de idade da Itália, cresceu forte e com saúde e em 1915 casou-se com Josephina Modanese, cerquilhense, também filha de italianos. Desta união nasceram 10 filhos ( Angela, Augusta, Domingos, Paulo, Andre, Antonio, Maria, Lourdes, Francisco e Elisa).
Paulo Grando, um dos 10 filhos, nasceu em Cerquilho no ano de 1923 ainda no Casarão, que chegou a abrigar mais de 100 pessoas.
Em 1930 a família que já tinha em sua posse 150 alqueires de terra resolve encerrar o período do Casarão e dividir a terra entre todos os patriarcas. E passaram a ter cada um a sua propriedade.
Cerquilho tornou-se cidade somente no ano de 1948, ano em que nasce o primeiro filho de Paulo Grando e Maria de Lourdes Amadio, chamado José Cláudio Grando, outros 7 filhos viriam em seguida ( Flávio, Nivaldo, Celso, Silvio, Paulo, Vera Lúcia e Elenice).
Hoje 3 ruas de Cerquilho levam nomes desta genealogia. A rua Francisco Grando ( onde também tem um escola levando o nome da sua esposa: EMEB Josephina Modanesi Grando). A rua Paulo Grando ( antigo chefe do casarão) situada no centro. E a rua Vereador Domingos Grando ( um dos filhos de Francesco Grando) situada no bairro Parque das Árvores.
Paulo Grando sempre fez questão que todos os filhos estudassem, pois sabia que esta seria a grande oportunidade de crescerem na vida.
José Cláudio estudou em Cerquílio e fez o curso científico na cidade de Tietê e em 1968 entra na Faculdade de Medicina de Marília. Casou-se em 1972 com Marizilda Souto, mariliense e descendente de avós espanhóis que imigraram para o Brasil também no final do século XIX.
Após se formar médico com especialidade em urologia, José Cláudio ajudou a estudar os outros 7 irmãos. Todos estudaram e tiveram a sua profissão.
Em 1974 nasce João Paulo Souto Grando, o primeiro filho do Cláudio, como era chamado pelos familiares Grandos e em 1975 nasce Juliana Souto Grando.
O casal de filhos nasceu em Marília, mas pouco tempo depois toda a família mudou-se para Panorama no extremo oeste do estado de São Paulo, onde José Cláudio trabalhava no então hospital da cidade.
Em 1977, José Cláudio em busca de melhores oportunidades muda-se com a família pro município de Dracena, a 38 km de Panorama. Lá, José Cláudio pôde trabalhar, estudar os dois filhos. Elegeu-se prefeito de Dracena por 2 vezes. Seus 2 filhos seguiram os passos do pai e se formaram em medicina. João Paulo fez especialização em urologia em Londrina no estado do Paraná e sua irmã Juliana em psquiatria na USP de Ribeirão Preto.
Em 1988, a família resolve realizar uma grande festa pra comemorar o I Centanário da Imigração da Família Grando ao Brasil. Com uma importante pesquisa da prima Maria Ivanete Grando Melaré ( neta de Francesco Grando e bisneta de Domenico Grando), ela levanta dados dos Grandos que acompanharam Antonio Grando na viagem de 1888, descrevendo suas descendencias.
Também realiza entrevista com Olivo Grando, o último filho de Francesco Grando a estar ainda vivo.
Foi sem dúvida uma maravilhosa festa.
Em 26 de março de 2008 nasce a filha do casal, chamada Livia Pimenta Grando. E em 2011 nasce a segunda filha, chamada Manuela Pimenta Grando.
Esta é uma história de uma família que fez do trabalho e da união a sua vitória. Não tinham uma dinastia de nobreza, senão nas ações e nos corações. É uma verdadeira dinastia di lavoro ( do trabalho) como diria o mais antigo patriarca italiano conhecido, Domenico Grando: Cerchiamo a crescere in amore e lavoro....